Principais dilemas do auditor interno
Principais dilemas do auditor interno*
Em
novembro de 2023, o IIA Brasil publicou um texto** interessante que resume os
principais dilemas enfrentados pelos auditores internos no desempenho de suas
funções. Esses dilemas, que podem se tornar obstáculos ou entraves, estão
relacionados à natureza sensível e vital do papel da auditoria interna dentro
da organização. Como as responsabilidades desse órgão abrangem uma série de
fatores organizacionais complexos, a experiência tem mostrado que quem exerce
essa função enfrenta inúmeros desafios. A seguir, apresentaremos,
resumidamente, esses dilemas.
Independência
X Pressão Interna: Manter a independência enquanto
trabalham dentro da organização é um dos maiores desafios enfrentados pelos
auditores internos. Eles podem sofrer pressões para não relatar problemas,
especialmente quando esses problemas envolvem níveis hierárquicos mais
elevados. Algumas sugestões sobre como os auditores internos podem enfrentar este
dilema:
·
fortalecer o apoio da alta
administração e do conselho, de forma a garantir que a auditoria interna tenha
o respaldo direto do conselho de administração e da alta direção;
·
estabelecer canais de comunicação
clara e transparente diretos e confidenciais com o conselho ou o comitê de
auditoria;
·
documentação rigorosa, mantendo
registros detalhados de todas as auditorias realizadas, incluindo as decisões
tomadas e as pressões enfrentadas, pode proteger o auditor e fornecer
evidências em caso de questionamentos posteriores;
·
treinamento contínuo em ética e
conformidade, para reforçar a importância da independência e ajudar os
auditores a desenvolver habilidades para lidar com pressões internas de maneira
eficaz;
·
recomendar o estabelecimento de
políticas de não-retaliação para a organização, para garantir que os auditores
internos (e qualquer outro profissional da empresa) possam relatar problemas
sem medo de represálias;
·
fomentar uma cultura organizacional
de integridade, que valorize a transparência, a ética e a responsabilidade em
todos os níveis da organização.
Confidencialidade
X Transparência: No exercício de suas funções, o
auditor interno tem acesso a informações sensíveis da organização e manter a
confidencialidade dessas informações é essencial. No entanto, também é
fundamental relatar não conformidades relevantes à alta administração, o que
pode gerar um dilema quando informações confidenciais estão envolvidas. Como
enfrentar isto:
·
estabelecer uma política clara de
classificação de informações, que defina quais dados são confidenciais e o
nível de sigilo necessário. Isso permite que o auditor interno saiba exatamente
como tratar diferentes tipos de informações;
·
relatórios segmentados, onde
informações altamente confidenciais são compartilhadas apenas com aqueles que
realmente precisam saber, como membros do conselho ou do comitê de auditoria;
·
acordos de confidencialidade, para garantir
que os membros da alta administração e outros destinatários de relatórios de
auditoria estejam vinculados por acordos de confidencialidade específicos, para
assegurar que as informações sensíveis sejam tratadas com o devido cuidado
mesmo após o reporte;
·
consulta ao comitê de auditoria antes
de divulgar informações confidenciais para obter orientações sobre como
proceder, garantindo que a transparência necessária seja mantida sem
comprometer a confidencialidade;
·
utilização de tecnologias de
segurança, que permitem o compartilhamento seguro de informações sensíveis,
garantindo que apenas as pessoas autorizadas tenham acesso a dados
confidenciais;
·
treinamento em ética e conformidade,
para todos os envolvidos no fluxo de informação, de forma a destacar a
importância da confidencialidade e transparência para todos os envolvidos,
garantindo que todos entendam as implicações de compartilhar ou reter
informações.
Relacionamento
com a Gestão: os auditores internos devem manter um relacionamento profissional
e respeitoso com a alta administração, o que pode ser desafiador, especialmente
quando identificam problemas que podem refletir negativamente nos controles
implementados pela gestão. Aqui estão algumas sugestões para lidar com o dilema
do relacionamento com a gestão:
·
comunicação assertiva e diplomática,
desenvolvendo habilidades de comunicação de forma que, ao apresentar
descobertas, seja claro e objetivo, mas também sensível à forma como as
informações são transmitidas, evitando que a mensagem seja percebida como uma
crítica pessoal;
·
foco em soluções ao relatar
problemas, ou seja, devem não apenas apontar falhas, mas também sugerir
soluções construtivas, demonstrando o compromisso com o fortalecimento dos
controles da organização e ajudando a gestão a ver o auditor como um parceiro
em vez de um adversário;
·
estabelecimento de expectativas
claras desde o início do processo de auditoria é muito importante para ajudar a
reduzir mal-entendidos. Isso inclui comunicar à gestão que o objetivo da
auditoria é fortalecer a organização e que identificar problemas faz parte
desse processo;
·
construção de confiança com a
gestão, por meio de interações regulares e transparentes, de forma a facilitar
a aceitação de feedbacks negativos;
·
separação entre o papel do auditor e
da gestão, reforçando que o papel do auditor é avaliar processos e controles e
não julgar indivíduos ou setores, como forma de ajudar a minimizar o impacto
emocional das auditorias.
·
formação contínua em gestão de
relacionamentos, proporcionando aos auditores internos treinamento contínuo em
gestão de relacionamentos e habilidades interpessoais para ajudá-los a lidar
com situações delicadas de maneira mais eficaz e profissional.
Escopo
X Recursos Limitados: quase sempre, os auditores internos
precisam realizar seu trabalho com recursos limitados, o que pode dificultar a
execução de auditorias abrangentes e comprometer a capacidade de identificar
todos os riscos presentes nos processos e controles da organização. Sugestões
para enfrentar o dilema de escopo versus recursos limitados na auditoria
interna:
·
Priorização de riscos: realizar
análise de riscos para priorizar as áreas de maior impacto e relevância; focar
nos processos e controles mais críticos pode ajudar a maximizar a eficácia das
auditorias mesmo com recursos limitados;
·
Planejamento estratégico: desenvolver
um plano estratégico da Auditoria Interna que seja detalhado e que considere as
limitações de recursos. O planejamento deve incluir uma abordagem escalonada,
onde as auditorias mais abrangentes são realizadas em fases ou em ciclos;
·
Uso intensivo de tecnologia, de
forma a aproveitar ferramentas de auditoria e tecnologia para automatizar
tarefas e análises. Softwares de auditoria, análise de dados e inteligência
artificial podem ajudar a melhorar a eficiência e a abrangência dos testes
realizados;
·
Parcerias e consultorias: considerar
a contratação de consultores externos para áreas específicas onde a expertise
interna é limitada ou onde há necessidade de uma avaliação mais detalhada;
·
Capacitação da equipe: investir em
treinamento contínuo para a equipe de auditoria pode melhorar a eficiência e a
eficácia. Equipes bem treinadas podem realizar auditorias mais eficazes mesmo
com menos recursos;
·
Comunicação com a alta administração:
Discutir abertamente com a alta administração sobre as limitações de recursos e
a necessidade de alocar mais recursos ou ajustar o escopo das auditorias. Ter o
suporte da administração pode ajudar a obter recursos adicionais ou redefinir
expectativas;
·
Utilização de métodos de amostragem
estatística para realizar auditorias em uma parte representativa dos dados, o
que quase sempre será mais viável do que tentar auditar toda a população.
Ética
Profissional X Denúncia de Irregularidades: Os auditores internos devem manter
elevados padrões de ética profissional em todas as suas atividades. No entanto,
isso pode se tornar um dilema quando enfrentam situações que exigem decisões
éticas complexas, como denunciar irregularidades envolvendo a alta
administração ou órgãos de governança. Aqui estão algumas sugestões para
enfrentar este dilema:
·
Adotar um Código de Ética rigoroso:
Seguir um código de ética bem definido e amplamente aceito, como o Código de
Ética do IIA (Instituto dos Auditores Internos), que orienta sobre a conduta
profissional e os procedimentos para lidar com irregularidades. Caso a empresa
não tenha seu próprio código de ética, recomendar a elaboração de um;
·
Estabelecer canais de denúncia anônimos
para que os auditores – e demais funcionários – possam relatar irregularidades
sem medo de represálias, protegendo a identidade do denunciante e encorajando a
comunicação de problemas;
·
Consultar o Comitê de Auditoria ou o
Conselho: Em situações complexas, buscar a orientação do comitê de auditoria ou
do conselho de administração pode proporcionar uma abordagem mais objetiva e
garantir que as irregularidades sejam tratadas adequadamente.
·
Buscar orientação jurídica e ética: consultar
um advogado especializado em ética e compliance pode ajudar a entender as
implicações legais e éticas de denunciar irregularidades, proporcionando uma
base sólida para a tomada de decisões;
·
Manter uma documentação detalhada de
todas as descobertas e decisões relacionadas a irregularidades é fundamental
para não só proteger o auditor, mas também fornecer uma base sólida para a
análise e a tomada de decisões;
·
Realizar treinamentos regulares
sobre ética, compliance e procedimentos para a denúncia de irregularidades,
tanto para os auditores como para todo o board da empresa.
·
Promover uma cultura de transparência
e integridade como forma de reduzir o risco de irregularidades e aumentar a
confiança na função de auditoria interna;
·
Manter a independência e a imparcialidade
ajuda a garantir que as decisões sejam tomadas com base em princípios éticos,
sem influências externas. Além disso, evitar participar de decisões de outras
instâncias da empresa e fora dos trabalhos técnicos de auditoria interna
contribui para manter a independência e a imparcialidade da Unidade de
Auditoria Interna, principalmente se aquela decisão partir de áreas ou
processos que compõem o universo auditável.
Mudanças
nas normas e regulamentações: Os auditores internos precisam
acompanhar constantemente as mudanças nas normas, regulamentações e melhores
práticas de auditoria. Esse desafio é agravado pela constante evolução do
ambiente regulatório, que exige atualização contínua para garantir que as
auditorias estejam em conformidade com os padrões mais recentes. Para enfrentar
este dilema:
·
Educação e treinamento contínuos
para a equipe de auditoria, tais como participar de seminários, webinars
e cursos especializados que ajudem a manter o conhecimento atualizado sobre as
normas e melhores práticas;
·
Associações profissionais: tornar-se
membro de associações profissionais, como o IIA (Instituto dos Auditores
Internos) ou outras entidades relevantes, que oferecem recursos, publicações e
atualizações sobre mudanças regulatórias e normativas;
·
Contratar consultores ou
especialistas externos para ajudar a interpretar e implementar novas normas e
regulamentações, pois podem fornecer insights e orientações específicas
para garantir a performance;
·
Monitoramento de publicações e fontes
oficiais, por exemplo assinar newsletters e acompanhar sites oficiais que forneçam
informações relevantes sobre mudanças e atualizações;
·
Estabelecer processos internos para
revisar e atualizar regularmente os procedimentos e políticas de auditoria em
resposta a novas regulamentações e normas;
·
Formar comitês ou grupos de trabalho
dedicados ao monitoramento de mudanças regulatórias e à implementação de
práticas de conformidade dentro da organização;
·
Documentar todas as alterações nas
normas e regulamentações e ajustar os procedimentos de auditoria conforme
necessário, de forma a garantir que as práticas estejam sempre alinhadas com os
requisitos mais recentes;
·
Realizar revisões periódicas e obter
feedback sobre como as mudanças nas normas estão sendo implementadas e
compreendidas e, conforme necessário, ajustar as estratégias para melhorar a
conformidade e a eficácia.
Comunicação
eficaz e objetiva X Comunicação construtiva: Transmitir de
forma eficaz e objetiva os resultados das auditorias, especialmente quando
envolvem problemas críticos que requerem ajustes, pode ser um dilema. A
comunicação deve ser precisa e direta, mas também construtiva e recomendar
melhorias nos processos, para assegurar que os resultados sejam compreendidos e
aceitos sem gerar ruídos negativos. Dado que o nível de reporte da auditoria é
elevado dentro da organização, é crucial equilibrar a clareza das informações
com a necessidade de fornecer recomendações úteis para melhorias, promovendo um
ambiente de melhoria contínua. Algumas opções para enfrentar o dilema:
·
Preparar relatórios claros e
objetivos, destacando os problemas críticos de forma direta, mas que também
incluam seções específicas para recomendações e ações corretivas. Utilizar
linguagem simples e evitar jargões técnicos para garantir que todos os
envolvidos compreendam as questões e as sugestões;
·
Fornecer feedback construtivo ao
comunicar problemas, adotando uma abordagem que vá além de relatar as questões,
oferecendo sugestões práticas e específicas para melhorias, destacando como as
mudanças propostas podem beneficiar a organização e mitigar os problemas
identificados;
·
Reuniões para discutir os resultados
da auditoria com a equipe envolvida, o que permitirá uma troca de ideias mais
dinâmica, facilitando a compreensão mútua e oferecendo oportunidade de
esclarecer dúvidas e discutir soluções em tempo real;
·
Incluir exemplos ou casos de sucesso
relacionados à implementação de melhorias sugeridas em relatórios de auditoria,
mostrando como outras partes da organização ou empresas semelhantes resolveram
problemas. Isso pode ajudar a contextualizar e validar suas recomendações;
·
Treinamento em técnicas de
comunicação eficaz e construtiva, incluindo habilidades para apresentar
informações de forma clara e objetiva, bem como para desenvolver recomendações
que sejam úteis e bem recebidas;
·
Desenvolver modelo de relatório padronizado
que inclua seções específicas para a descrição dos problemas, impacto, e
recomendações de melhorias. Um formato padronizado pode ajudar a garantir que
todas as auditorias sejam comunicadas de forma consistente e compreensível;
·
Envolver as partes interessadas
processo de auditoria desde o início, permitindo que elas forneçam feedback
sobre a abordagem e as recomendações propostas. Isso pode aumentar a aceitação
das sugestões e ajudar a garantir que as comunicações sejam mais bem recebidas;
·
Ao relatar problemas, apresente não
apenas as falhas, mas também destaque as soluções possíveis, mostrando um
caminho claro para a resolução, de forma a ajudar transformar críticas em
oportunidades de melhoria e promover uma atitude mais positiva em relação às
auditorias.
Atuação
do auditor X Impacto no clima do ambiente de trabalho: em alguns casos, os
resultados das auditorias podem afetar negativamente o clima de trabalho das
equipes auditadas, gerando reflexos negativos e potencialmente reduzindo a
eficiência. Além disso, auditores internos podem enfrentar impactos pessoais em
função dos resultados de seu trabalho, o que pode prejudicar seu crescimento
dentro da organização e criar dificuldades na execução de futuras auditorias e
interações com outras áreas. Aqui estão algumas opções para enfrentar os
problemas relacionados a este dilema:
·
Desenvolvimento de habilidades de comunicação
e diplomacia: os auditores devem receber treinamento em habilidades de
comunicação e diplomacia para abordar as equipes auditadas de maneira
construtiva e respeitosa. Isso ajuda a minimizar o impacto negativo e a
promover uma colaboração mais eficaz;
·
Promoção de uma cultura de melhoria contínua
que veja a auditoria como uma oportunidade para melhoria contínua em vez de um
obstáculo. Isso pode ser feito através da comunicação clara sobre os benefícios
da auditoria e do foco em soluções e melhorias;
·
Fornecer feedback regular e
construtivo para as equipes auditadas, destacando tanto os pontos fortes quanto
as áreas que precisam de melhoria. Isso ajuda a manter o moral e a motivação da
equipe, além de reduzir a resistência à auditoria;
·
Envolver as partes interessadas e as
equipes auditadas no processo de auditoria desde o início, que pode incluir
discussões preliminares sobre o escopo e os objetivos da auditoria, ajudando a
alinhar expectativas e reduzir tensões;
·
Oferecer suporte e formação pós-auditoria
para as equipes auditadas com base nos resultados da auditoria, o que pode
ajudar a resolver problemas identificados e a melhorar o desempenho, mostrando
que a auditoria tem um propósito positivo;
·
Manter processos de auditoria
transparentes e bem documentados, garantindo que todos os envolvidos entendam o
propósito e o processo da auditoria. O objetivo é que a transparência pode
reduzir a percepção de suposta arbitrariedade e ajudar a construir confiança;
·
Reconhecer e valorizar as
contribuições dos auditores internos e das equipes auditadas tende a mostrar
apreço pelos esforços e resultados e pode ajudar a melhorar o moral e o clima
organizacional;
·
Estabelecer uma política de ação corretiva
e de acompanhamento dos resultados da auditoria permite assegurar que as
recomendações sejam práticas e acompanhadas de suporte para sua implementação,
situação que pode ajudar a minimizar o eventual impacto negativo;
·
Incentivar um ambiente de
colaboração entre auditores e equipes auditadas, estabelecendo uma abordagem
colaborativa para reduzir a sensação de antagonismo e promover uma atmosfera
mais positiva e produtiva.
Os
dilemas enfrentados pelos auditores, como visto acima, são desafios que exigem
uma abordagem estratégica e sensível. A implementação das sugestões
apresentadas pode ajudar a minimizar os efeitos negativos e maximizar a
eficácia da auditoria, promovendo um ambiente de trabalho mais colaborativo e
produtivo. Além disso, enfrentar esses desafios com uma mentalidade construtiva
assegura que as auditorias sejam vistas como oportunidades de aprimoramento e
não apenas como barreiras. Por fim, é fundamental reconhecer que as práticas sugeridas
e estratégias discutidas devem ser adaptadas às características específicas de
cada empresa, conforme a estrutura organizacional, a cultura e os processos
únicos de cada organização, que devem orientar a aplicação das técnicas e
métodos de auditoria com vistas a realizar sua função de maneira eficaz,
contribuindo para a continuidade dos negócios e a criação de valor sustentável
para a organização.
* Este texto fará parte de um capítulo do livro Auditando tudo: A Auditoria como Elemento Fundamental para a Governança, ainda sem data de lançamento.
** The IIA Brasil. Os principais dilemas do auditor interno. Disponível em < https://iiabrasil.org.br//noticia/os-principais-dilemas-do-auditor-interno?utm_campaign=blog___-_os_principais_dilemas_do_auditor_interno&utm%E2%80%A6>. Publicado em 21 nov. 2023. Acesso em ago. 2024.
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